quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Educação a distância
No contexto histórico de transformação da educação pelos recursos de mídia e tecnologias a UAB (Universidade Aberta do Brasil) surgiu para sanar uma dívida histórica com os profissionais da educação. Pela facilidade de chegar a qualquer lugar por meio de satélite as universidades públicas firmaram parcerias entre as três esferas (municipal, estadual, federal) para permitir a formação superior a profissionais que já atuam na área, mas não tiveram a oportunidade de cursar uma faculdade. Cumpre-se desta forma o que determina a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Com pólos de apoio presenciais e a distância permite a articulação e gestão do processo de ensino e aprendizagem de forma democrática. O que para alguns profissionais da educação até bem pouco tempo era surreal, tornou-se possível e concreto. O discente pode estudar ajustando suas atividades acadêmicas a rotina de trabalho. O fato de ser ofertada de forma gratuita tem sido também um atrativo. A UAB serve para levar o conhecimento técnico, permitindo-se assim o aperfeiçoamento da pratica de sala de aula.
O ensino por meio da modalidade a distancia é promovido de forma democrática. Faz com que o aluno otimize seu termo, e o aproveite de forma quantitativa e qualitativamente. Ele não aprende de forma dependente, pois tem um material de apoio, impresso e digital. O aluno aprende a medida que se propõe a analisar os conteúdos propostos. A precisa ser disciplinado e ter a mesma seriedade se estivesse fazendo um curso no modelo tradicional.
O tutor na modalidade EAD, funciona como o mediador entre o aluno e a plataforma de ensino. Tira dúvidas, motiva a participação, busca soluções para pequenas ou grandes demandas. Cria um espaço virtual que seja atrativo para o aluno, não somente pela formação que esta recebendo, mas por verificar com regularidade, e dar o feedback das atividades promovidas.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Gestão de sala de aula - parte I
Domínio de conteúdo
Chegar em sala com segurança sobre aquilo que vai ensinar. O aluno percebe a insegurança do professor e muita vezes usa isto contra o próprio.
Seja motivado, não precisa de nada mirabolante, mas o que fizer que faça com disposição.
Fazer um estudo prévio sobre o que vai lecionar.
Pesquizar pelo menos uma teoria diferente. A internet permite isso, e há sempre algo novo para se descobrir.
Tirar as dúvidas antes de chegar a sala.
Obs. Participe desta atividade, deixe o seu comentário a respeito do assunto, outras dicas relacionadas a DOMÍNIO DE CONTEÚDO na gestão de sala de aula.Obrigada, até a próxima.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Capítulo IX - Alice no país das maravilhas
Capítulo 9 |
| "Você não pode imaginar como eu estou feliz em vê-la novamente, minha queridinha", disse a Duquesa, tocando afetuosamente o braço de Alice, passando a caminhar junto com ela. Alice ficou feliz por encontrá-la de bom humor, e pensou consigo mesma que talvez fosse a pimenta que a deixava tão selvagem como quando as duas se conheceram na cozinha. "Quando eu for uma Duquesa", ela disse para si mesma ( não em um tom muito esperançoso), "não vou usar pimenta em minha cozinha de jeito nenhum. Sopa cai muito bem sem isso talvez seja a pimenta que deixe as pessoas mal-humoradas", ela continuou, bem feliz de ter descoberto um novo tipo de regra, "e o vinagre as deixa azedas...e a camomila as deixa amargas...e...e as balas de cevada e este tipo de coisas é que deixam as crianças tão doces. Eu queria que as pessoas soubessem disso: então, eles não, seriam tão sovinas com doces, sabe..." Ela quase se esqueceu da Duquesa nessa hora e levou um pequeno susto quando ouviu sua voz perto dos ouvidos. "Você está pensando em alguma coisa, minha querida, e isso faz você esquecer de falar. Eu não posso lhe dizer agora qual é a moral disso mas vou lembrar num instante." "Talvez não haja nenhuma", Alice aventurou-se a observar. "Ora, ora, criança!", retrucou a Duquesa. "Tudo tem uma moral, se você encontrá-la." E foi se apertando contra Alice enquanto falava. Alice não gostou muito de estar tão perto dela, em primeiro lugar porque a Duquesa era muito feia, e em segundo lugar porque era do tamanho exato para apoiar o queixo sobre o ombro de Alice, e possuía um queixo muito pontudo. Entretanto, Alice não queria ser rude e por isso agüentou o quanto pôde. "O jogo parece estar bem melhor agora", disse para manter a conversa. "Perfeito", respondeu a Duquesa, "e a moral disso é..." Oh!, é o amor, é o amor que faz o mundo girar!" "Alguém disse", Alice murmurou, "que ele gira quando cada um cuida dos seus próprios negócios." "Ah! Bem! Isto quer dizer quase a mesma coisa", disse a Duquesa enfiando o queixo pontudo nos ombros de Alice, completando, "e a moral disso é...Tome conta do sentido e os sons tomarão conta de si mesmos." "Como ela gosta de achar uma moral em tudo!", Alice pensou consigo mesma. "Aposto como você está pensando porque eu não coloco meu braço na sua cintura", a Duquesa falou, depois de uma pausa. "A razão é: tenho dúvidas em relação ao humor do seu flamingo. Posso experimentar?" "Ele pode bicar", Alice cautelosamente replicou, não se sentindo nem um pouco a fim de que ela tentasse. "Bem verdade", disse a Duquesa, "flamingos e a mostarda bicam. E a moral disso é...Pássaros da mesma plumagem voam juntos." "Só que a mostarda não é um pássaro", Alice observou. "Certo. Como sempre", disse a Duquesa, "você tem uma maneira muito clara de colocar as coisas!" "É um mineral, eu acho", disse Alice. "É claro que é", disse a Duquesa, que parecia pronta para concordar com tudo que Alice dissesse. "Há uma grande máquina de mostarda perto daqui. E a moral disso é...Qaunto mais tenho para mim, menos sobra para os outros." "Ah!, já sei!", exclamou Alice, que não tinha prestado atenção à última observação da Duquesa. "É um vegetal. Não parece com um mas é." "Eu concordo com você", disse a Duquesa, "e a moral disso é...Seja o que você parece ser...ou, se você prefere colocar isso de um jeito mais simples...Nunca se imagine diferente do que deveria parecer para os outros o que você fosse ou poderia ter sido não seja diferente do que você tendo sido poderia ter parecido para eles ser diferente." "Eu acho que poderia entender melhor", disse Alice polidamente, "se eu tivesse isso por escrito: não consigo seguir com você falando." "Isso não é nada em comparação com o que eu poderia dizer, se quisesse", replicou a Duquesa num tom de prazer. Por favor, não se dê ao trabalho de dizer isso mais complicado que já disse", falou Alice. "Oh, não fale em dar trabalho", disse a Duquesa. "Dou-lhe de presente tudo o que já falei até agora." "Um tipo de presente bem barato!", pensou Alice. "Fico feliz que as pessoas não costumem dar presentes de aniversário como esses!". Mas ela não se aventurou a dizer issso em voz alta. "Pensando novamente?", perguntou a Duquesa, com outro cutucão do seu queixo pontudo. "Eu tenho o direito de pensar", disse Alice asperamente começando a se sentir aborrecida. "Tem tanto direito", disse a Duquesa, "quanto os porcos têm de voar, e a mo..." Mas nesse instante, para grande surpresa de Alice, a voz da Duquesa sumiu, bem no meio da sua palavra favorita, moral, e o braço que estava grudado no seu começou a tremer. Alice olhou para cima e lá estava a Rainha diante dela, com os braços cruzados, franzindo o cenho como uma tempestade de raios e trovões. "Um belo dia, não é, Majestade?", a Duquesa começou, com uma vozinha débil, frágil. "Agora, eu vou lhe dar um aviso sincero", gritou a Rainha, batendo os pés no chão enquanto falava, "ou você ou a sua cabeça devem sair daqui, e já! Faça sua escolha!" "Vamos continuar com o jogo", a Rainha disse para Alice, e a menina estava assustada demais para dizer qualquer coisa, por isso seguiu-a lentamente em direção ao campo de críquete. Os outros convidados tiraram vantagem com a ausência da Rainha e estavam descansando na sombra: entretanto, tão logo a avistaram correram apressados para o jogo, pois a Rainha tinha reforçado que um minuto sequer de atraso iria lhes custar a vida. Todo o tempo em que eles estiveram jogando a Rainha não parou nem um minuto de discutir com os jogadores e gritar "Cortem a cabeça dele!", ou "Cortem a cabeça dela!". Aqueles que eram sentenciados ficavam sob custódia dos soldados, que, é claro, tinham que deixar seus postos de arcos do jogo para isso, daí, lá pelo final da primeira meia-hora de jogo, já não havia mais arcos e todos os jogadores, com exceção do Rei, da Rainha e de Alice estavam presos e sob sentença de execução. Então a Rainha abandonou o jogo, quase sem fôlego e perguntou para Alice: "Você já viu a Falsa Tartaruga?" "Não", respondeu Alice. "Eu nem mesmo sei quem é a Falsa Tartaruga." "É com o que se faz a Sopa de Falsa Tartaruga", completou a Rainha. "Nunca vi uma, nem mesmo ouvi falar", disse Alice. "Venha, então", disse a Rainha, "e eu vou lhe contar a história dela." Como todos caminhavam juntos, Alice ouviu o Rei dizer em voz baixa para os condenados: "Vocês estão todos perdoados." "Bem, isso é uma boa coisa!", Alice disse para si mesma, pois estava se sentindo muito triste com as execuções que a Rainha ordenara. Logo eles chegaram junto a um Grifo, que jacarezava ao sol. (Se você não sabe o que é um Grifo, olhe a figura) "Levante-se, preguiçoso!", disse a Rainha. "E leve esta senhorita para ver a Falsa Tartaruga e ouvir sua história. Eu preciso voltar para verificar algumas execuções que ordenei", e afastou-se, deixando Alice sozinha com o Grifo. Alice não gostou muito do visual da criatura, mas ela pensou que no fim das contas estaria mais a salvo ficando com ele do que seguindo com a selvagem Rainha. Pelo menos era o que esperava. O Grifo sentou-se e esfregou os olhos, olhando a Rainha até que ela sumisse de vista. Então começou a rir por entre os dentes. "Qual é a graça?", perguntou Alice. "Ela", disse o Grifo. "Tudo é fantasia dela. Eles nunca executam ninguém, sabe. Vamos!" "Todo mundo diz 'vamos' por aqui", pensou Alice , ao mesmo tempo que começou a segui-lo lentamente. "Eu nunca fui tão mandada em toda minha vida antes, nunca!" Eles ainda não tinham ido muito longe, quando avistaram a Falsa Tartaruga ao longe, sentada triste e solitária sobre a pequena saliência de uma pedra e, ao chegarem mais perto, Alice pôde ouvi-la suspirar como se seu coração estivesse partido. Alice sentiu uma grande pena dela. "Porque ela está triste?", perguntou ao Grifo. E o Grifo respondeu com quase as mesmas palavras que dissera em relação à Rainha: "É tudo fantasia dela, ela não tem pelo que entristecer, sabe. Vamos!" Eles foram então na direção da Falsa Tartaruga, que olhou para eles com seus grandes olhos cheios de lágrimas, mas não disse nada. "Esta jovem", disse o Grifo, "quer saber sua história, quer sim." "Eu vou lhe contar", disse a Tartaruga, com uma voz profunda, cavernosa. "Sentem-se os dois, e não digam nenhuma palavra até eu terminar." Então eles sentaram-se e ninguém falou nada por alguns minutos. Alice pensou consigo mesma. "Eu não sei como ela pode terminar se nem mesmo começa." Mas esperou pacientemente. "Uma vez", disse a Falsa Tartaruga afinal, com um suspiro profundo. "Eu era uma Tartaruga de verdade!" Estas palavras foram seguidas de um grande silêncio, quebrado apenas por uma ocasional exclamação "Hjckrrh!", vindo do Grifo e os constantes e fortes soluços da Falsa Tartaruga. Alice já estava a ponto de levantar e dizer "Obrigada, Senhora, pela sua interessante história", mas ela não podia deixar de pensar que deveria haver mais algo a ser dito e então ficou sentada e não disse nada. "Quando nós éramos pequenos", a Falsa Tartaruga continuou afinal, mais calmamente, embora ainda soluçando um pouquinho, "íamos para a escola no mar. O professor era uma velha Tartaruga. Nós costumávamos chamá-la Tartenruga (N. da T. - Tortoise é um tipo de tartaruga que vive na terra ou na água doce, enquanto turtle é aquela do mar). "E por que chamá-la de Tartenruga se ela era uma Tartaruga?", perguntou Alice. "Nós a chamávamos assim porque tinha rugas", a Falsa Tartaruga respondeu com irritação. "Você é mesmo muito tonta!" "Você deveria envergonhar-se de fazer uma pergunta tão boba", completou o Grifo, e então os dois sentaram-se e ficaram em silêncio olhando para a pobre Alice, que sentiu-se a ponto de enfiar a cabeça no chão de vergonha. Finalmente o Grifo disse para a Falsa Tartaruga: "Vai em frente, velha amiga! Não vamos ficar aqui o dia inteiro!". Ela então prosseguiu: "Sim, nós íamos para a escola no mar... mas parece que você não acredita mesmo..." "Eu não disse nada!", interrompeu Alice. "Disse sim!", retrucou a Falsa Tartaruga. "Segure sua língua", completou o Grifo, antes que Alice pudesse retrucar. A Falsa Tartaruga continuou: "Nós tivemos a melhor educação...na verdade, nós íamos à escola diariamente..." "Eu também ia à escola todos os dias", falou Alice, "você não tem porque ficar orgulhosa disso." "Com aulas extra?", perguntou a Falsa Tartaruga um pouco ansiosa. "Sim", respondeu Alice, "nós aprendíamos Francês e música." "E lavagem?", mais uma vez perguntou a Falsa Tartaruga. "É claro que não", disse Alice indignadamente. "Ah! Então a sua escola não era realmente boa", acrescentou a Falsa Tartaruga em um tom de grande alívio. "Agora, na nossa tinha, afinal, 'Francês, música e lavagem'...extra." "Vocês não precisavam muito disso", retomou Alice, "vivendo no meio do mar." "Eu não tinha recursos para pagá-los", insistiu a Falsa Tartaruga com um suspiro. "Eu só freqüentava os cursos regulares." "E quais eram?" indagou a menina. "Enrolação e Contorção, é claro, para começar", a Falsa Tartaruga replicou, "e depois os diferentes ramos da Aritmética: Ambição, Distração, Enfeiação e Derrisão." "Eu nunca ouvi falar em 'Enfeiação'", Alice atreveu-se a dizer. "O que é isso?" O Grifo levantou as patas em sinal de surpresa. "Nunca ouviu falar em 'Enfeiação'!", exclamou, "Você sabe o que é embelezamento, acredito eu!" "Sim", respondeu Alice sem muita certeza, "significa...fazer...alguma coisa...mais bonita..." "Bem, então", o Grifo continuou, "se você não sabe o que é enfeiação, você é muito boba mesmo." Alice não teve coragem de perguntar mais nada sobre o assunto. Virou-se então para a Falsa Tartaruga e disse: "O que mais você aprendeu?" "Bem, havia Mistério", e a Falsa Tartaruga começou a enumerar as matérias nas patas. "Mistério antigo e moderno, com Marografia: também Arrastamento...o professor de Arrastamento era um velho congro, que vinha uma vez por semana. Ele nos ensinava Arrastamento, Esticamento e ainda Desmaios em Bobinas." "E como é isso?", disse Alice. "Bem, eu não vou poder mostrar para você", completou a Falsa Tartaruga. "Ando meio fora de forma. E o Grifo não aprendeu isso." "Não tive tempo", disse o Grifo. "Eu estudei com o mestre das Clássicas. Ele era um velho caranguejo, se era." "Nunca tive aulas com ele", retomou a Falsa Tartaruga com um suspiro. "Ele ensinava Risando e Desgosto, dizem." "É isso mesmo, isso mesmo" disse o Grifo, suspirando também. Os dois esconderam as caras nas patas. "E quantas horas vocês estudavam por dia?", perguntou Alice, apressando-se em mudar de assunto. "Dez horas no primeiro dia", respondeu a Falsa Tartaruga, "nove no segundo e assim por diante." "Que coisa estranha!", exclamou Alice. "É por isso que chamávamos as aulas de lições (lessons)", o Grifo explicou, "porque elas diminuíam (lessen) cada dia." Aquela era uma idéia nova para Alice, e ela parou para pensar um pouco antes da sua próxima observação. "Então o décimo-primeiro dia tinha que ser feriado?" "Claro que era", respondeu a Falsa Tartaruga. "E como era no décimo-segundo?", perguntou com vivacidade Alice. "Chega de lições", o Grifo interrompeu em um tom decidido. "Conte a ela sobre os jogos agora." |
Capítulo VIII - Alice no país das maravilhas
Capítulo 8 |
| Uma grande roseira imperava na entrada do jardim: as rosas que nela cresciam eram brancas, mas havia três jardineiros que se ocupavam em pintá-las de vermelho. Alice achou que aquilo era uma coisa estranha e aproximou-se para ver melhor. Justamente na hora que chegou perto deles, ouviu um dos jardineiros dizer: "Cuidado, Cinco! Não jogue tinta em mim!" "Eu não tive culpa", disse o Cinco em um tom aborrecido. "O Sete empurrou meu cotovelo." Nisso o Sete olhou para cima e retrucou: " Muito bem, Cinco! Sempre colocando a culpa nos outros!" "É melhor você não falar nada!", disse o Cinco. "Ontem mesmo eu ouvi a Rainha dizer que você merecia ser decapitado!" "Por quê?", disse aquele que tinha falado primeiro. "Não é de sua conta, Dois!", disse o Sete. "É sim, é da conta dele!", disse o Cinco. "E eu vou dizer pra ele... é porque você levou raízes de tulipa ao invés de cebolas para a cozinheira." O Sete jogou o pincel fora, e estava começando a falar "Bem, de todas as injustiças...", quando seus olhos caíram sobre Alice, que os estava observando. Ele calou-se subitamente: os outros olharam ao redor e todos curvaram-se em respeitosa reverência. "Vocês poderiam dizer-me, por favor", disse Alice , um pouco timidamente, "por que estão pintando estas rosas?" O Cinco e o Sete não disseram nada, mas olharam para o Dois. O Dois começou, em um tom baixo: " Porque, de fato, você vê, Senhorita, esta deveria ser uma roseira vermelha, e nós plantamos uma roseira branca por engano, e, se a Rainha descobrir, nós todos seremos decapitados, sabe. Portanto, você vê, Senhorita, estamos fazendo o melhor possível, antes que ela chegue para..." Neste exato momento, o Cinco, que estivera todo o tempo olhando ansiosamente para o jardim, gritou: "A Rainha! A Rainha!" E os três jardineiros atiraram-se instantaneamente de bruços no chão. Havia o som de muitas passadas, e Alice olhava ao redor, doida para ver a Rainha. Em primeiro lugar chegaram dez soldados carregando clavas: eles eram todos da mesma forma que os jardineiros, retangulares e achatados, com as mãos e os pés saindo dos quatro cantos; depois vinham dez cortesãos, que eram ornamentados com diamantes e caminhavam de dois em dois, como os soldados. Depois desses vinham as crianças reais, dez delas, e as gracinhas iam saltitando alegremente de mãos dadas, em duplas também. A seguir vinham os convidados, a maior parte de Reis e Rainhas, e entre estes Alice reconheceu o Coelho Branco, falando apressadamente de um jeito nervoso, sorrindo para tudo o que era dito. Ele seguiu sem reconhecer Alice. Finalmente vinha o Valete de Copas, que carregava a coroa do Rei sobre uma almofada de veludo escarlate, antecipando o final do grande cortejo, que trazia O REI E A RAINHA DE COPAS. Alice estava em dúvida se deveria ou não atirar-se ao chão de bruços como os três jardineiros, mas não conseguia se lembrar se já tinha ouvido falar sobre tal regra em cortejos, "e além disso, qual seria a utilidade de um cortejo", pensou, "se as pessoas ficam de bruços e não podem vê-lo?" Então ela ficou como estava e esperou. Quando o cortejo passou por Alice, todos pararam e olharam para ela. A Rainha disse, severamente: "Quem é isso?", dirijindo-se ao Valete de Copas, que apenas curvou-se e sorriu em resposta. "Idiota!", disse a Rainha, balançando a cabeça impacientemente, e, dirigindo-se para Alice, prosseguiu: "Qual é o seu nome, criança?" "Meu nome é Alice, às suas ordens Majestade", disse Alice bem educadamente, mas acrescentou, para si mesma, "Oras, afinal de contas eles não passam de um baralho de cartas. Eu não preciso ter medo deles!" "E quem são esses?", perguntou a Rainha, apontando para os três jardineiros que estavam ainda estendidos ao lado da roseira. Isso porque, vocês sabem, como eles estavam de bruços e a parte de trás do baralho era igual a todo o resto do baralho, ela não poderia dizer se eles eram jardineiros, ou soldados, ou cortesãos ou três das crianças reais. "Como é que eu poderia saber?", disse Alice surpreendida por sua coragem. "Não é da minha conta." A Rainha ficou vermelha de raiva e depois de encará-la por um momento como uma fera selvagem, começou a gritar: "Cortem-lhe a cabeça! Cortem-lhe..." "Besteira!", retrucou Alice, em tom alto e decidido, e a Rainha calou-se. O Rei pousou sua mão sobre o braço da esposa e disse timidamente: "Deixe pra lá, minha querida: ela é apenas uma criança!" A Rainha afastou-se dele com raiva e disse para o Valete: "Vire-os!" O Valete os virou, muito delicadamente, com um pé. "Levantem-se!", disse a Rainha com uma voz estridente e alta, e os três jardineiros instantaneamente saltaram e começaram a fazer reverências para o Rei, a Rainha, as crinças reais e todo o resto do pessoal. "Parem com isso", gritou a Rainha. "Vocês me deixam tonta." Então, virando-se para a roseira, ela continuou falando: "O que vocês estavam fazendo aqui?" "Para servir à Sua Majestade", disse o Dois, humildemente, ficando sobre um joelho enquanto falava, "nós estávamos tentando..." "Eu entendo!", disse a Rainha, enquanto examinava as rosas. "Cortem-lhe as cabeças!" e o cortejo prosseguiu, com três dos soldados ficando para trás para executar os desafortunados jardineiros, que correram na direção de Alice em busca de proteção. "Vocês não serão decapitados!", disse Alice, colocando-os dentro de um grande jarro de flores que estava por perto. Os três soldados ficaram confusos por um minuto ou dois, procurando por eles e então voltaram para o final do cortejo. "As cabeças já foram cortadas?", berrou a Rainha. "Suas cabeças se foram, para servi-la, Majestade!"", os soldados gritaram em resposta. "Muito bem!", gritou a Rainha. "Você sabe jogar críquete?" Os soldados permaneceram em silêncio e olharam para Alice, pois a pergunta era evidentemente dirigida a ela. "Sim!", gritou Alice. "Então venha", rugiu a Rainha e Alice juntou-se ao cortejo, doida para saber o que aconteceria a seguir. "É um...é um belo dia!" disse uma vozinha tímida ao seu lado. Ela estava caminhando bem ao lado do Coelho Branco, que ficava olhando o tempo todo para ela. "Muito", disse Alice. "Onde está a Duquesa?" "Psiu!Psiu!", disse o Coelho em voz baixa, assustado. Ele olhava ansiosamente por sobre os ombros enquanto falava e então ergueu-se na ponta das patinhas, colocando a boca bem perto dos ouvidos de Alice e cochichou: "Ela foi condenada." "A que pena?" perguntou Alice. "Você disse Que pena!?", o Coelho perguntou. "Não, eu não disse", retrucou Alice. "Não acho que seja uma pena. Eu disse A que pena?!" "Ela deu um murro nos ouvidos da Rainha...", o Coelho começou a contar. Alice disparou a rir. "Oh, psiu!", o Coelho murmurou em um tom assustado. "A Rainha irá ouvi-la! Mas você entende, a Duquesa chegou muito tarde e a Rainha falou..." "Tomem seus lugares!", gritou a Rainha em uma voz de trovão, e as pessoas começaram a correr em todas as direções, batendo umas nas outras. Entretanto, em um minuto ou dois estavam todos em seus lugares e o jogo começou. Alice pensou que ela nunca em sua vida vira um campo de críquete tão curioso: ele era todo cheio de saliências e sulcos, as bolas de críquete eram ouriços vivos e os tacos eram flamingos também vivos. Os soldados curvavam-se e colocavam as mãos no chão para fazer os arcos do jogo. A principal dificuldade que Alice encontrou no início foi como segurar seu flamingo: ela poderia manter o corpo dele sob seu braço com razoável conforto, com as pernas da ave penduradas. Mas, geralmente quando conseguia esticar o pescoço do flamingo e ia fazê-lo chutar o ouriço com a cabeça, ele virava-se e olhava para Alice com uma expressão tão confusa que ela não conseguia parar de rir. Depois, quando desvirava a cabeça dele e se preparava para começar tudo de novo, era irritante perceber que o ouriço tinha se desenroscado e fugia. Além disso, sempre havia uma saliência ou sulco no caminho em que ela queria mandar o ouriço e os soldados-arcos estavam sempre se levantando e mudando de lugar. Alice logo chegou à conclusão que aquele era realmente um jogo muito difícil. Os jogadores jogavam todos ao mesmo tempo, sem esperar sua vez, discutindo o tempo todo, brigando pelos ouriços; logo a Rainha estava furiosa e batia com os pés no chão, gritando: "Cortem a cabeça dele!", ou "Cortem a cabeça dela!" o tempo todo. Alice começou a sentir-se muito mal: para dizer a verdade, ela ainda não tinha discutido nenhuma vez com a Rainha no jogo mas sabia que poderia acontecer a qualquer minuto, "e então", ela pensou, "o que irá acontecer comigo? Eles são loucos para cortar as cabeças por aqui. A grande dúvida é como ainda existe alguém vivo!" Ela estava procurando alguma maneira de escapar, imaginando se daria para fugir sem ser vista quando percebeu uma curiosa aparição no ar: aquilo a confundiu muito no início, mas depois de olhar por um minuto ou dois percebeu que era um sorriso e ela dise para si mesma: "É o Gato de Cheshire: agora eu tenho alguém com quem falar." "Como você está se saindo?", perguntou o Gato, tão logo ele teve boca o suficiente para falar. Alice esperou até que seus olhos surgissem e então cumprimentou-o com a cabeça. "Não adianta falar com ele", ela pensou, "até que suas orelhas apareçam, ao menos uma delas. "Em um minuto toda a cabeça apareceu e então Alice colocou seu flamingo no chão e começou a comentar o jogo, sentindo-se muito feliz por ter alguém para ouvi-la. O Gato parecia achar que já havia parte suficiente sua aparente e nada mais surgiu. "Eu não acho que eles joguem de maneira muito certa", Alice começou em um tom de queixa, "e discutem de um jeito tão maluco que você não consegue ouvir ninguém falar...e parece que eles não têm nenhuma regra. Finalmente, se têm, ninguém parece respeitar...você não faz idéia de como é confuso jogar com todas essas coisas vivas. Por exemplo, o arco sob o qual deveria passar minha bola mudou-se para o outro lado do campo...e quando eu deveria atingir o ouriço da Rainha agora há pouco, ele saiu correndo ao ver o meu se aproximando!" "O que é que você acha da Rainha?", perguntou o Gato em uma voz baixa. |
"Nada em especial", respondeu Alice, "ela é tão extremamente..." Exatamente neste instante ela percebeu que a Rainha estava bem ao seu lado, ouvindo, "...boa nesse jogo que vai ser muito difícil chegar ao final da partida." A Rainha sorriu e seguiu em frente. "Com quem você está falando?", perguntou o Rei, vindo em direção de Alice e olhando para a cabeça do Gato com muita curiosidade. "É um amigo meu...o Gato de Cheshire", respondeu Alice. "Deixe-me apresentá-lo." "Eu não gosto do jeito dele", disse o Rei. "Entretanto ele pode beijar minha mão, se quiser." "Eu prefiro não beijar", o Gato retrucou. "Não seja impertinente", disse o Rei, "e não me olhe dessa maneira!", escondendo-se atrás de Alice enquanto falava. "Um gato pode olhar para um rei", disse Alice. "Eu já li isso em algum livro, mas não me recordo qual." "Bem, ele tem que retirar-se daí", disse o Rei decidido, e chamou a Rainha, que passava por ali naquele momento: "Minha querida! Eu gostaria que você mandasse retirar esse gato daqui!" A Rainha só tinha uma maneira de remover todas as dificuldades, grandes ou pequenas. "Cortem-lhe a cabeça!", ela ordenou sem nem mesmo olhar para os lados. Alice pensou que seria melhor voltar e ver como andava a partida, quando ouviu ao longe a voz da Rainha gritando enlouquecidamente. Ela já ouvira por três vezes a sentença de execução para jogadores que tinham perdido sua vez e não estava gostando nada disso, pois com o jogo confuso como estava ela nunca sabia se era sua vez ou não de jogar. Daí, ela saiu procurando seu ouriço. O ouriço estava engalfinhado com outro ouriço, o que pareceu para Alice uma excelente oportunidade para atirar um contra o outro: a única dificuldade foi que o seu flamingo tinha corrido para o outro canto do campo, onde Alice podia vê-lo tentando, sem grandes resultados, levantar vôo até uma árvore. Quando finalmente ela conseguiu apanhar o flamingo e trazê-lo novamente de volta, a luta entre os ouriços tinha terminado e os dois animais tinham sumido: "Mas isso não importa", Alice pensou, "pois todos os arcos se foram desse lado do campo." Então ela novamente colocou o flamingo debaixo do braço para que ele não escapasse novamente, e voltou para conversar um pouquinho mais com seu amigo. Quando ela voltou para onde estava o Gato de Cheshire, surpreendeu-se com uma multidão ao seu redor: havia uma discussão entre o carrasco, o Rei e a Rainha, todos falando ao mesmo tempo, enquanto o resto permanecia em silêncio, parecendo bastante constrangidos. No momento em que Alice apareceu, foi chamada pelos três para decidir a questão. Eles repetiram seus argumentos, mas, como todos falavam ao mesmo tempo, ela achou muito difícil entender exatamente o que diziam. O carrasco argumentava que não se pode cortar uma cabeça ao menos que ela não esteja presa a um corpo. Que ele nunca fizera uma coisa dessas na vida e não seria desta vez que ele começaria. O Rei argumentava que qualquer coisa que tivesse cabeça poderia ser decapitada, e que aquela conversa era besteira. A Rainha argumentava que, se alguma coisa não fosse feita rapidamente, ela iria mandar executar todo mundo em volta. (Esta última observação é que deixara o grupo com aquele tom sério e ansioso.) Alice não encontrou nada melhor para dizer que "Ele pertence à Duquesa: seria melhor perguntar para ela sobre isso." "Ela está na prisão", a Rainha disse ao carrasco. "Vá buscá-la." E o carrasco saiu disparado como uma flecha. A cabeça do Gato começou a desaparecer bem no momento em que ele se foi e na hora que o carrasco voltou com a Duquesa já tinha sumido totalmente. O Rei e o carrasco começaram a procurá-lo desesperadamente por todo lado, enquanto o restante do grupo voltou ao jogo. |
Capítulo VII - Alice no país das maravilhas
Capítulo 7 |
| Havia uma mesa arrumada embaixo de uma árvore, em frente à casa, e a Lebre de Março e o Chapeleiro estavam tomando chá; um Leirão estava sentado entre os dois, dormindo profundamente, e os outros dois o usavam como almofada, descansando sobre ele e conversando sobre sua cabeça. "Muito desconfortável para o Leirão", pensou Alice, "mas já que ele está dormindo, acho que não se importa." A mesa era bem grande, mas os três amontoavam-se num canto. "Não tem lugar! Não tem lugar!", eles gritaram ao ver Alice chegando."Tem muito lugar!", disse Alice com indignação, e sentou-se em uma grande poltrona numa das cabeceiras da mesa. "Tome um pouco de vinho", a Lebre de Março ofereceu em um tom encorajador. Alice olhou ao redor por sobre a mesa e não havia nada senão chá. "Eu não vejo nenhum vinho", ela observou. "Não tem nenhum mesmo", retrucou a Lebre de Março. "Então não é muito educado de sua parte oferecer", respondeu Alice com raiva. "E não é muito educado de sua parte sentar-se sem ser convidada", disse a Lebre de Março. "Eu não sabia que era sua mesa", insistiu Alice, "ela está arrumada para muito mais que três convidados." "Seu cabelo está precisando ser cortado", disse o Chapeleiro. Ele estivera olhando para Alice por algum tempo com grande curiosidade e esta fora sua primeira intervenção. "Você deveria aprender a não fazer esse tipo de comentário pessoal", Alice retrucou com severidade. "Isso é muito grosseiro." O Chapeleiro arregalou os olhos ao ouvir isso, mas, tudo que ele disse foi: " Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?" "Legal, vamos ter diversão agora!", pensou Alice. "Fico feliz que ele tenha começado a propor charadas - acho que posso adivinhar essa", ela completou em voz alta. "Você acha que pode encontrar a resposta dessa?" perguntou a Lebre de Março. "Exatamente", respondeu Alice. "Então você pode dizer o que acha", a Lebre de Março continuou. "E vou", Alice replicou rapidamente, "pelo menos- pelo menos, eu acho o que digo - o que é a mesma coisa, você sabe." "Não é a mesma coisa nem um pouco!", disse o Chapeleiro. "Senão você também poderia dizer", completou a Lebre de Março, "que 'Eu gosto daquilo que tenho' é a mesma coisa que 'Eu tenho aquilo que gosto.'" "Seria o mesmo que dizer", interrompeu o Leirão, que parecia estar falando enquanto dormia, "que 'Eu respiro enquanto durmo' é a mesma coisa que 'Eu durmo enquanto respiro!'" "Isso é a mesma coisa para você", disse o Chapeleiro, e nesse ponto a conversa parou e a reunião ficou em silêncio por um minuto. Enquanto isso Alice tentava lembrar tudo que ela sabia sobre corvos e escrivaninhas, que não era muito. O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio. "Que dia do mês é hoje?", perguntou, virando-se para Alice: ele tinha tirado seu relógio do bolso e olhava para ele ansiosamente, chacoalhando-o de vez em quando e levantando-o no ar. Alice pensou um pouco e então falou: "É dia quatro." "Dois dias errado", suspirou o Chapeleiro. "Eu falei pra você que a manteiga não ia adiantar nada", ele completou, olhando raivosamente para a Lebre de Março. "Era a melhor manteiga", a Lebre de Março replicou mansamente. "Sim, mas algumas migalhas devem ter caído", o Chapeleiro rosnou. "Você não deveria ter passado com uma faca de pão." A Lebre de Março apanhou o relógio e olhou para ele melancolicamente; então afundou-o na sua xícara de chá, e olhou novamente para ele: mas parecia que não encontrava nada melhor para dizer que o que já dissera: "Era a melhor manteiga, você sabe." Alice estivera olhando por cima dos ombros com curiosidade. "Que relógio engraçado!", ela observou. "Ele diz o dia do mês e não diz a hora!" "Porque deveria?", resmungou o Chapeleiro."Por acaso o seu relógio diz o ano que é?" "É claro que não", Alice replicou rapidamente, "mas é porque o ano permanece por muito tempo o mesmo." "Este é exatamente o caso do meu", disse o Chapeleiro. Alice sentiu-se terrivelmente perturbada. O comentário do Chapeleiro parecia para a menina completamente sem sentido, e ainda assim era inglês. "Eu não estou entendendo nada", ela disse, o mais educadamente que pôde. "O Leirão está dormindo novamente", disse o Chapeleiro, e despejou um pouco de chá quente sobre seu nariz. O Leirão balançou a cabeça impacientemente e disse, sem abrir os olhos: "É claro, é claro, é justamente o que eu ia dizer." "Você já adivinhou a charada?", perguntou o Chapeleiro, virando-se novamente para Alice. "Não, eu desisto", Alice respondeu. "Qual é a solução?" "Eu não tenho a mínima idéia", disse o Chapeleiro. "Nem eu", disse a Lebre de Março. Alice suspirou enfastiadamente. "Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com seu tempo", ela disse, "ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta." "Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço", o Chapeleiro falou, "não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa." "Eu não sei o que você está dizendo", disse Alice. "Claro que não!", o Chapeleiro disse, sacudindo a cabeça desdenhosamente. "É muito provável que você nunca tenha falado com o Tempo!" "Talvez não", Alice replicou cautelosamente, "mas eu sei que tenho que marcar o tempo quando aprendo música." "Ah! Isso explica", concluiu o Chapeleiro. "Ele não vai ficar marcando compasso para você. Agora, se você ficar numa boa com ele, poderá fazer o que quiser com o relógio. Por exemplo, suponha que são nove horas da manhã, bem a hora de começar a fazer as lições de casa, você apenas tem que insinuar no ouvido do Tempo e o ponteiro dá uma virada num piscar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!" ("Eu queria que fosse", a Lebre de Março disse para si mesma num sussurro.) "Isso seria ótimo, com certeza", disse Alice pensativamente; "mas então...eu poderia ainda não estar com fome, você sabe." "A princípio não, talvez", retomou o Chapeleiro, "mas você poderia ficar na uma e meia da tarde tanto tempo quanto você quisesse." "É assim que você faz?", perguntou Alice. O Chapeleiro balançou a cabeça com ar de lamento. "Eu não", ele replicou. "Eu e o Tempo tivemos uma disputa março passado...um pouco antes dela enlouquecer, você sabe..."( apontando a Lebre de Março com a colher de chá)"...foi no grande concerto dado pela Rainha de Copas e eu tinha que cantar Pisca, pisca, pequeno morcego! Nesse instante o Leirão estremeceu e começou a cantar dormindo "Pisca, pisca, pisca, pisca..." e continuou repetindo tantas vezes a palavras que tiveram que lhe dar um beliscão para que ele parasse. "Bem eu mal tinha acabado de cantar o primeiro verso", disse o Chapeleiro, "quando a Rainha berrou 'Ele está matando o tempo! Cortem-lhe a cabeça!'" "Que selvageria", exclamou Alice. "E desde então", o Chapeleiro continuou num tom de lamento, "ele não faz nada do que eu peço! É sempre seis da tarde agora!" Uma idéia brilhante veio à mente de Alice. "Esta é a razão de tantas coisas para o chá colocadas na mesa?" ela perguntou. "É, é isso", respondeu o Chapeleiro com um suspiro, "é sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar as coisas entre um chá e outro." "Então vocês ficam rodando em volta da mesa, não é?", disse Alice. "Exatamente", disse o Chapeleiro, "à medida que as coisas vão ficando sujas." "Mas o que acontece quando vocês chegam ao início outra vez?", Alice aventurou-se a perguntar. "Eu proponho que mudemos de assunto", a Lebre de Março interrompeu, bocejando. "Estou ficando cansada disso. Eu voto para que a jovem senhorita conte-nos uma história." "Eu temo que não conheço nenhuma", disse Alice, um pouco alarmada com a proposta. "Então o Leirão contará!", os outros dois gritaram."Acorde, Leirão!" E beliscaram-no dos dois lados. O Leirão abriu os olhos lentamente. "Eu não estava dormindo", ele falou numa voz rouca,fraquinha, "eu ouvi cada palavra que meus amigos falavam." "Conte-nos uma história!", disse a Lebre de Março. "Sim, por favor!, implorou Alice. "E seja rápido", completou o Chapeleiro, "ou você poderá dormir novamente antes de acabar." "Era uma vez três irmãzinhas", ele começou apressadamente, "e seus nomes eram Elsie, Lacie e Tillie, e elas viviam no fundo de um poço..." "E o que elas comiam?", perguntou Alice, que sempre se interessava pelas questões sobre comida e bebida. "Elas comiam melado", respondeu o Leirão, depois de pensar por um minuto ou dois. "Elas não poderiam viver só de melado, você sabe", Alice observou gentilmente. "Elas ficariam doentes." "E ficaram", disse o Leirão,"muito doentes." Alice tentou um pouquinho imaginar quão extraordinário seria este modo de vida, mas ficou muito confusa e assim, continuou: "Mas porque elas viviam no fundo de um poço?" "Tome mais um pouco de chá", ofereceu a Lebre de Março para Alice, com um ar sério. "Mas eu ainda não tomei nada", replicou Alice em um tom ofendido, "portanto eu não posso tomar mais." "Você quer dizer que não pode tomar menos", disse o Chapeleiro, "é mais fácil tomar mais do que nada." "Ninguém perguntou sua opinião", disse Alice. "Quem está fazendo observações pessoais agora?", o Chapeleiro perguntou triunfalmente. Alice não tinha o que responder no momento, daí, aproveitou para tomar um pouco de chá com torradas. Virou-se então para o Leirão e repetiu sua pergunta: "Porque elas viviam no fundo de um poço?" Mais uma vez o Leirão demorou um minuto ou dois para responder e então disse: "Era um poço de melado." "Isso não existe!", Alice estava ficando muito brava, mas o Chapeleiro e a Lebre de Março começaram a fazer psiu e o Leirão com um ar amuado observou: "Se você não consegue se comportar civilizadamente, é melhor que acabe a história por conta própria." "Não, por favor, continue!", disse Alice humildemente. "Eu não vou mais interromper. É muito provável que existe mesmo um poço assim." "Um, certamente!", retomou o Leirão indignadamente. Entretanto, ele continuou. "Bem, daí as três irmãzinhas...elas estavam aprendendo a extrair, sabe..." "O que elas extraíam?", perguntou Alice, já esquecendo da promessa. "Melado", respondeu o Leirão, sem levar em conta a quebra da promessa, dessa vez. "Eu quero uma xícara limpa", interrompeu o Chapeleiro, "vamos mudar de lugar." Ele avançou um lugar enquanto falava, e o Leirão o seguiu, a Lebre de Março ficou no seu lugar e Alice com má vontade ficou com o lugar da Lebre de Março. O Chapeleiro foi o único que ficou com a xícara limpa e Alice ficou em um lugar bem pior do que estava antes, pois a Lebre de Março tinha acabado de derramar leite no prato. Alice não queria ofender o Leirão novamente, por isso começou a falar com cautela: "Mas eu não entendi. De onde elas extraíam o melado?" "Você pode extrair água de um poço de água", disse o Chapeleiro, "portanto eu acho que pode extrair melado de um poço de melado, não é, imbecil?" "Mas elas estavam dentro do poço", Alice disse para o Leirão, como se não tivesse ouvido o último comentário. "É claro que estavam", respondeu o Leirão, "bem no fundo". Esta resposta confundiu de tal forma a pobre Alice, que ela deixou o Leirão prosseguir por algum tempo sem interrompê-lo. "Elas estavam aprendendo a extrair", continuou o Leirão, bocejando e esfregando os olhos, pois estava ficando com muito sono, "e elas extraíam todo tipo de coisas...tudo o que começava com M..." "Por que com M?", disse Alice. "Por que não?" respondeu a Lebre de Março. Alice ficou em silêncio. |
O Leirão aproveitou para fechar os olhos e já estava começando a cochilar, mas, ao ser beliscado pelo Chapeleiro, acordou novamente com um gritinho e continuou, "...que começava com M, como mouse-traps(ratoeira) e moon(lua) e memory(memória, lembranças) e muchness( advérbio de intensidade)... você sabe, quando você diz que as coisas são um monte de muitão... você já pensou nisso como um extração de muitão?" "Realmente, agora que você me pergunta", disse Alice, bem confusa, "eu acho que não..." "Então você não deveria falar nada", disse o Chapeleiro. "Esse tipo de grosseria era mais do que Alice conseguia suportar: ela levantou-se muito brava e foi saindo. O Leirão caiu no sono imediatamente e nenhum dos outros dois deu a mínima para sua saída, embora ela tenha olhado para trás uma ou duas vezes, meio que querendo que eles a chamassem. A última vez que Alice os avistou eles estavam tentando enfiar o Leirão dentro do bule de chá. "Eu não volto lá de jeito nenhum!", disse Alice, enquanto abria caminho em direção à floresta. "Foi o mais estúpido chá do qual participei em toda minha vida!" Ao dizer isso ela percebeu que uma das árvores tinha uma porta que dava para seu interior. "Que curioso!", ela pensou. "Mas tudo está tão curioso hoje. Eu acho que posso muito bem entrar nessa árvore." E entrou. Uma vez mais ela encontrou-se naquela sala comprida e com a pequena mesa de vidro. "Desta vez já sei como fazer", ela disse para si mesma, e começou por apanhar a pequena chave dourada, depois abriu a porta que dava para o jardim. Só então ela começou a mordiscar o cogumelo (que ela mantivera em seu bolso) até que estivesse com mais ou menos 30 centímetros de altura: daí ela atravessou a pequena passagem e então ... ela estava em um lindo jardim entre canteiros de flores resplandecentes e fontes de água fresca. |